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O que a Copa do Mundo nos ensinou sobre o Patriarcado e o Masculino Profundo?

Com o encerramento do maior evento esportivo do planeta, a Copa do Mundo, podemos refletir melhor sobre como as manifestações masculinas observadas nas vitórias e derrotas das seleções ainda mostram como os homens lidam com o seu papel no mundo, e como a sociedade lida com o modelo patriarcal que perpetua um modelo de masculinidade ao mesmo tempo infantil e obscuro. Questões que indicam que ainda há muito o que se discutir sobre o papel do Masculino Profundo. Enfim, qual é o papel do homem no mundo contemporâneo?


Quando a seleção brasileira de futebol foi eliminada pelo seu adversário e os seus maiores ídolos da atualidade, ainda que jovens, caíram ao chão chorando feito meninos, percebi que teria um bom conteúdo para compartilhar com vocês a respeito do tema. O curioso é que esse mesmo fato não aconteceu apenas com o time nacional. Seleções de todo o mundo repetiram comportamentos semelhantes nas mesmas circunstâncias da derrota, alguns com mais ou menos veemência. Treinadores (leia-se patriarcas) também repetiram padrões frequentes. Certamente que existe o elemento da frustração da perda, algo natural para o atleta acostumado com a competição. Então não era só o choro ou só a contenção da emoção que estava em jogo.


A grande maioria dos treinadores de futebol mantem o modelo paternalista arquetípico. A propósito, para homens esses parecem ser os únicos papéis existentes na sua condição: heróis ou patriarcas. Quando o líder de uma equipe manifesta a perspectiva de que “somos uma grande família”, ele se autodeclara como o pai dessa família. Portanto, se proclama como o patriarca enquanto os atletas são vistos como os filhos e heróis. Nesse momento ele encarna o arquétipo que é responsável por garantir que todas as regras sejam cumpridas e age para que os heróis trabalhem corretamente para que o status quo seja preservado.


Ao passo que quando os filhos sentam e choram quando a derrota acontece, o patriarca precisa sempre preservar a sua imagem rígida. Foi o que observamos quando nosso técnico saiu diretamente para o vestiário, enquanto os jogadores permaneceram desolados no campo. Caso ele chore na derrota, e acredito que tenha feito isso, chora sozinho e bem longe dos filhos e de qualquer outra pessoa. Fazer isso em público demonstraria toda a sua fragilidade, vulnerabilidade. Possivelmente seria visto também como sinal de perda de comando, de controle. Ele seria visto despido da sua armadura. De certo que haveria algum impacto no convívio com todos os outros grupos sociais no qual ele se relaciona. Além deste fato, essa blindagem não permite que ele receba feedbacks, não permite críticas, especialmente se a críticas forem de fora.


Como o patriarca trata atletas de maneira infantilizada eles acabam sendo notados como garotos mesmo que não sejam. Essa relação colabora para eximir o indivíduo da responsabilidade em todas as ocasiões, mas quando falha ele pode chorar mesmo que essa seja uma reação emocional masculina atípica, afinal de contas é a reação natural da fragilidade de uma criança que se frustra. Na condição de um homem adulto ele jamais faria isso. Não faria porque fora do campo de jogo seguramente diriam para ele que “homem não chora”. Esse é um pensamento cristalizado na sociedade. Os arquétipos e as percepções do papel do masculino e do comportamento do homem são algo que provém de muitas gerações, por isso, estão vivos no inconsciente coletivo. Então essa manifestação aberta de sentimento e vivência de uma experiencia de vulnerabilidade poderia ter um significado libertador para a maioria dos homens, senão visse como consequência de uma certa infantilização. Então tem ainda um longo caminho para que os homens de forma geral possam manifestar publicamente suas emoções de forma adequada ao seu estágio de maturidade.


Como expressar a masculinidade de maneira saudável?


Dentro de campo, nessas competições, diante de vitórias, os homens costumam trocar afetos entre eles. Normalmente se abraçam, choram juntos, e a depender de que parte do mundo é o time e a cultura do seu país eles até beijam o rosto mutuamente. Na torcida esse mesmo gesto acontece. Mas nessas ocasiões especificas a masculinidade de nenhum deles é colocada em questão. É como se fosse concedida uma permissão especial para que isso aconteça. Funciona quase como uma espécie de irmandade, confraria. É o local ideal para dar vazão aos sentimentos. Contudo, fica reservado somente para essa situação. Outra questão característica do masculino patriarcal que não lida com as emoções por “entender” que elas são próprias das mulheres.


Até a questão da diversidade foi abordada na competição, mas ainda sob o ponto de vista patriarcal e de maneira muito contida. A maioria dos treinadores são brancos e lidam com times repletos de atletas negros. A situação é bem nítida especialmente nas seleções do continente europeu em que há muitos atletas do continente africano de nacionalidade dupla. Esse tipo de diversidade não é uma diversidade da vida real, ela só tem um fim específico. Após a competição ela se desfaz. Muitas vezes não está presente na sociedade em que eles vivem. E depois, o que acontece a partir disso? Como o time se aproveita dessa oportunidade? A questão tem mais uma peculiaridade da dominância patriarcal branca do que realmente da diversidade como contribuição.

É possível acessar outros arquétipos mais adequados ao momento atual?


Ao pesquisar como se construiu o papel do masculino ao longo do tempo se percebe foi esquecido um arquétipo ainda mais primitivo que é o do Caçador-Xamã-Malandro. Desde então até hoje os homens afastaram-se cada vez mais desse papel flexível e caminharam fortemente na direção de se tornarem guerreiros e patriarcas. Ou seja, adotaram o modelo que é incumbido de cuidar das regras e manter a ferro e fogo a estrutura social. Para se resgatar esse arquétipo que é capaz de reconhecer sua força, mas também admitir sua fragilidade, é necessário percorrer um caminho que leva os homens a explorar as suas vivências com o feminino (com o seu feminino interno), e a partir de uma perspectiva masculina que também lida com as suas sombras, isto é, com aquilo que não foi explorado ainda.


A partir disso é possível resgatar as qualidades de flexibilidade e de uma percepção melhor do seu papel masculino maduro, capaz de conviver com todos as pessoas e grupos de igual para igual. Sem parecer uma criança fragilizada ou um patriarca cheio de rigidez que não sabe lidar com suas emoções ou se constrange ao manifestá-las publicamente. Quando nem o papel de herói e nem o papel de patriarca cabe mais no seu contexto é necessário se questionar que outros caminhos são possíveis para você.


Você já deixou de ser quem você é para ser o que esperam que você seja?


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Se deseja ter apoio de coach profissional para se desenvolver e amadurecer neste tema, entre em contato: jorge.dornelles.oliveira@ggnconsultoria.com.br Whats app (11) 96396.9951



Jorge Dornelles de Oliveira

Dezembro de 2022


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