O medo de ser muito capaz e o complexo de Jonas

Se pudéssemos colocar numa balança qual medo é maior em nós: o de fracassar ou o de ser brilhante? Certamente o segundo ganha a disputa com ampla vantagem.


Você já parou para pensar que o nosso maior medo não é o de sermos incapazes, mas sim o de sermos muito maiores do que pensamos?


À primeira vista isso parece um choque de realidade. Soa até como inconcebível que esse questionamento ocorra em nossa mente. No entanto, em processos de coaching o tema se mostra muito mais frequente do que se avalia.


Durante a minha trajetória como coach, com mais de 3 mil horas de conversas com clientes dos mais distintos níveis, profissões e situações vividas; observo que o assunto é peça central para alcançar as transformações que se deseja obter. Em outras palavras, certamente você é intimidado pela sua própria luz e o fato pode atormentar e adiar grandes progressos até que se trabalhe corretamente a ideia de que é necessário ultrapassar essa barreira a ponto de o indivíduo apropriar-se da sua verdadeira missão.


Se até aqui a reflexão te incomodou, estamos no caminho certo.


Essa ponderação é fundamentada não só em minhas anotações, mas nas referências históricas vultuosas que validam o tema aqui apresentado.


Nelson Mandela, considerado o mais importante líder sul-africano até hoje, trouxe esse assunto em 1994 em seu discurso de posse como presidente do país, após viver severos infortúnios na vida: miséria, apartheid, sentenças e a prisão por mais de duas décadas. O grande chefe da nação africana citou em suas falas um verso de Marianne Williamson: “Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é de que somos poderosos além de qualquer medida. É a nossa luz, não as nossas trevas, o que mais nos apavora”, realçou o estadista.


O trecho citado fala que nós mesmos criamos a ideia de que não somos capazes de assumir grandes desafios; de que não possuímos a capacidade de ter a nossa própria luz e sermos brilhantes. Quando isso acontece concede-se ao outro a permissão de fazer o mesmo. Tudo acontece, seguramente, de forma inconsciente.


Nesse contexto a análise retorna ao processo de coaching para novamente criar conexões que o faça raciocinar acerca de um tópico primordial: você tem medo de assumir o seu próprio papel? Já se pegou em alguma situação em que teve receio de mostrar o quanto é brilhante?


Esse passo a mais que você dá quando se apropria do seu papel o leva ao encontro com o seu ser. Ele também marca a travessia dos seus medos e resgata a vontade de prosseguir a jornada sempre adiante.


Esse processo também foi ampliado pelo ponto de vista transpessoal de Jean- Yves Leloup, filósofo francês, teólogo e Ph.D. em psicologia. Citando o ‘Complexo de Jonas’, estudado por Sigmund Freud que exemplifica os medos que agem como obstáculo à descoberta do ser essencial verdadeiro e da missão que dela decorre.


A análise de Leloup aborda a história do profeta que recebeu uma missão da divindade para que cumprisse uma missão. Ele deveria ir a uma cidade chamada Nínive e chamar o povo ao arrependimento. Mas Jonas não foi. Embarcou num navio que ia para outra cidade. Veio uma grande tempestade. Os marinheiros ficaram com medo que o navio afundasse. Jonas sabia que Deus havia mandado a tempestade porque ele fugiu. Ele pediu aos marinheiros que o jogassem ao mar para que a tempestade parasse.


Após ser atirado ao mar, Deus então enviou uma baleia para salvar Jonas. Ele ficou na barriga do animal por três dias. Decidiu se arrepender e seguir a missão inicial. Jonas foi então cuspido pela baleia em terra seca.


Este é o desejo que convida a nos tornarmos nós mesmos e algo mais além de nós mesmos. Muitas vezes ele chega quando temos dificuldade em escutá-lo e chegamos até a recusá-lo.


Houve algum momento que você desistiu de avançar na sua trajetória por algum medo ou objeção?


· Medo do Self? Isso é impossível! É inaceitável!

· Medo da autenticidade? Eu tenho que fazer algo que ninguém pode fazer por mim!

· Medo do sucesso? O desejo de vencer é um sonho, mas, quando chega se torna problema?

· Medo de saber? O saber pode me libertar em certo sentido.

· Medo da solidão? Medo do ostracismo?


A fuga interior de não assumirmos esse papel pode gerar consequências não apenas em nosso interior, mas, também ao redor. Quando temos uma tarefa a cumprir, isso nos torna insubstituíveis e dá um sentido à nossa existência. Ela é a realização que cada ser humano pode conquistar em sua vida.


A alegoria contida nesses contos provoca uma reflexão que abrange conhecer a si mesmo, a sua sombra e os seus medos. E que não é saudável nos recusarmos a ser quem nos estamos destinados a ser.


Como coach, que tipo de perguntas você pode fazer para ajudar os seus clientes a tomarem consciência do seu desejo mais profundo de ser e liberar sua luz?


Jorge Dornelles de Oliveira

Março de 2021


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