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Como o coaching dialoga com os conflitos entre individualidade, consciência e conformidade retratados em Pluribus?

  • Foto do escritor: jorgedoliveira
    jorgedoliveira
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Quem acompanhou a primeira temporada da série Pluribus, um sucesso no streaming, se deparou com temas contemporâneos complexos, controversos e bem profundos. Individualidade vs. Coletivismo; custo da felicidade artificial; promessas e perigos de tecnologias que parecem oferecer soluções fáceis para problemas humanos complexos. Pluribus, produção de ficção científica pós-apocalíptica criada por Vince Gilligan, se passa em um futuro próximo em que um vírus alienígena misterioso, originalmente resultado da decodificação de sinais vindos de um exoplaneta distante, desencadeia um evento global chamado “the Joining”. Esse fenômeno transforma virtualmente toda a humanidade em membros de uma consciência coletiva pacífica e utópica conhecida como ‘Os Outros’, eliminando conflitos, ansiedades e desejos individuais em favor de uma felicidade constante e homogênea.


O título da série tem um significado simbólico importante: vem da expressão latina “E pluribus unum”, que se traduz como “De muitos, um”. Esse lema foi tradicionalmente associado à formação dos Estados Unidos e à ideia de união na diversidade, uma referência temática que Gilligan explora de maneiras profundas ao longo da narrativa. No centro da história está Carol Sturka, interpretada por Rhea Seehorn. Carol é uma escritora que, por razões inexplicáveis, é imune à assimilação pelo vírus, o que a torna uma das poucas pessoas com consciência individual no mundo transformado. Forçada a confrontar um novo paradigma de existência, ela embarca em uma jornada que mistura introspecção, resistência e questionamentos éticos profundos.


Com tom que mistura drama, humor ácido e especulação filosófica, Pluribus também reflete sobre temas como ideais utópicos, sacrifício pessoal, assim como as promessas e perigos de tecnologias que parecem oferecer soluções fáceis para problemas humanos complexos. Em um mundo onde todos compartilham uma mente única e universal, a série explora o que significa manter a singularidade de pensamento e emoção. Além disso, a promessa de um mundo sem sofrimento pode esconder uma perda radical da autonomia humana, uma reflexão sobre até que ponto a felicidade coletiva vale a diminuição da liberdade individual. Alguns críticos e espectadores veem a série como uma alegoria para debates modernos, como os dilemas do uso da tecnologia, pressões por conformidade social e os desafios do pensamento crítico em sociedades polarizadas.


Todos esses temas abordados na série são importantes para refletirmos com mais detalhamento. No processo de coaching, a tensão entre individualidade e coletivismo, por exemplo, é explorada como um equilíbrio dinâmico, não como uma escolha excludente. O foco não está em afirmar o “eu” contra o grupo, nem em diluir o indivíduo em nome do todo, mas em ajudar o indivíduo a compreender quem ela é, como pensa e como decide dentro de um sistema maior. O coaching trabalha para que a individualidade seja preservada como fonte de contribuição, e não como ameaça à coesão.


Em certa altura da série Pluribus, as personagens Carol e Manousos descobrem que o vírus transformou a população mundial em uma massa amorfa de positividade e alegria, eliminando a individualidade, o conflito e a capacidade de mentir, criando uma "adaptação feliz" ou "mente colmeia". E que dentro deles ainda habita o aspecto humano, mas que ele está adormecido, anestesiado. Sob a ótica psicológica, essa abordagem dialoga com conceitos como diferenciação do self (Murray Bowen), que descreve a capacidade de manter identidade, valores e pensamento próprio mesmo sob pressão relacional. Em ambientes altamente coletivistas ou hierárquicos, a baixa diferenciação tende a gerar conformidade automática, silêncio estratégico e perda de pensamento crítico.


O processo de coaching não tem como finalidade tornar o indivíduo apenas mais eficiente ou produtivo, tampouco induzir uma felicidade tóxica. Seu propósito é despertar a consciência, fortalecer a individualidade e ampliar o acesso às próprias potencialidades, permitindo que a pessoa viva em consonância com quem verdadeiramente é. É dessa coerência interna que emerge o pleno potencial criativo.


Quando o coaching aborda pressões por conformidade social, ele não as trata como fraquezas individuais, mas como fenômenos sistêmicos. Pessoas aprendem, consciente ou inconscientemente, que discordar tem custo emocional, político ou simbólico. O processo de coaching ajuda a tornar visíveis essas regras não ditas: o que pode ser dito, por quem, em que tom e com quais consequências. Tornar essas pressões explícitas já é, por si só, um ato de libertação cognitiva. Um dos meus trabalhos como coaching é resgatar a individualidade do ser para que ele viva como ele gostaria de ser, e não sendo aquilo que os outros esperam que ele seja.


Outro ponto interessante que a série aborda e que conversa diretamente com o processo de coaching tem a ver com a singularidade do pensamento. Em vez de reforçar posições, o coaching convida à metacognição, isto é, pensar sobre como se pensa. Esse tipo de racionalidade não é muito perceptível e costuma ser explorado com perguntas poderosas que deslocam o cliente do impulso reativo para uma posição mais reflexiva: O que estou defendendo? O que estou evitando? O que deixei de considerar? Esse movimento sustenta o pensamento crítico sem romper vínculos.


Essa consciência mais ampliada trabalha para formar pessoas e grupos capazes de sustentar sua identidade, dialogar com o coletivo e pensar com autonomia, mesmo sob pressão social e em contextos polarizados. É nesse espaço que surgem decisões mais maduras, éticas e sustentáveis. Compreender é algo que resulta do seu processo interno, dos seus insights, das suas descobertas, daquilo que é construído durante o trabalho e que é algo ainda maior. Quando o cliente (coachee) alcança compreensão sobre um assunto, não apenas consegue ressignificar fatos ou detalhes isolados, mas também é capaz de conectar essas informações a um quadro mais amplo, identificar padrões, inferir relações de causa e efeito e aplicar esse conhecimento de maneira prática. Traçando um paralelo, é aquilo que o filósofo classificou de “Alma da Consciência”.


Desenvolver a noção de Alma da Consciência nos permite compreender autoconsciência, isto é, reconhecer sensações, pensamentos e estados internos com clareza. Por meio dela, o ser humano amplia sua autonomia em relação à pura corporalidade e acessa um espaço de introspecção no qual o pensar se torna consciente. Essa dimensão da alma se caracteriza pelo fortalecimento da individualidade, pela ampliação da liberdade interior e por um maior distanciamento dos automatismos da natureza. É também nela que a individualidade superior se manifesta.



Ao se afastar da experiência intuitiva imediata de comunhão com o mundo espiritual, o ser humano passa a necessitar de uma nova forma de integração, baseada no pensar consciente e intuitivo. Esse movimento explica a busca crescente por aprender de forma autônoma e desenvolver o próprio potencial. O coaching dialoga diretamente com esse processo, pois o pensar intuitivo não é um ponto final da evolução mental, mas o início de uma ampliação mais profunda da realidade vivida.


Em contrapartida, muitas pessoas permanecem nos estágios da Alma da Sensação ou da Alma da Razão (ou da índole), o que reforça a busca por figuras externas de orientação, os chamados “gurus”, como condição para o próprio desenvolvimento. Esse fenômeno se intensificou nos últimos anos com o advento da internet, a expansão das redes sociais e o impacto do período pandêmico, que transformaram profundamente os modos de aprender e se formar. Soma-se a isso o acesso facilitado a uma grande quantidade de informações, em geral superficiais, e a mentalidade de novas gerações que acreditam não precisar aprender com os outros, um reflexo distorcido da Época da Alma da Consciência. Sem o correspondente desenvolvimento da autoconsciência, essa aparente autonomia não se sustenta e não conduz, de fato, a um caminho autêntico e responsável de desenvolvimento pessoal.


Em muitas regiões do mundo, como reflexo da evolução das Almas da Sensação, da Razão (ou índole) e da Consciência, instituições tradicionais como religiões, monarquias e outras estruturas de caráter divino ou hierárquico perderam credibilidade, confiança e conexão com parcelas significativas da população. Nesse vazio simbólico e existencial, proliferaram as figuras dos “gurus” como alternativas às estruturas estabelecidas. Esses líderes costumam oferecer ensinamentos e práticas que prometem soluções rápidas e profundas, o que encerra uma incoerência em si mesma. Embora aparentem estimular o pensar autônomo, muitas dessas abordagens criam relações de dependência, sem favorecer o desenvolvimento consciente do indivíduo. Um dos grandes desafios, portanto, é esclarecer que o processo de coaching parte do pressuposto de que o cliente é inteiro e capaz, e que seu desenvolvimento não depende de uma autoridade externa, mas do acesso ao próprio potencial, muitas vezes ainda desconhecido. Esse reconhecimento rompe a dependência e inaugura um pensar verdadeiramente independente.


De fato, as questões levantadas pela série são complexas, incertas e carregadas de camadas profundas de reflexão. Sem nos darmos conta, fomos nos tornando versões cada vez mais automatizadas de nós mesmos. Dos gestos cotidianos às decisões mais sofisticadas, grande parte da vida passou a operar como processos replicáveis. Nesse movimento, o risco não é apenas delegar tarefas às máquinas, mas assumir nós mesmos uma lógica maquinal. Ou talvez isso já esteja acontecendo.


A inteligência artificial avança justamente para ocupar o espaço das atividades repetitivas, liberando o ser humano do trabalho mecânico. O paradoxo surge quando, ao nos adaptarmos demais a esse modelo, deixamos de pensar, criar e questionar. Repetimos fórmulas, seguimos scripts, aplicamos regras sem reflexão. Se tudo o que fazemos pode ser automatizado, o que permanece essencialmente humano em nós?


O desafio contemporâneo não é competir com as máquinas, mas cultivar aquilo que não pode ser automatizado: consciência, discernimento, imaginação, presença e sentido. O que você tem desenvolvido em si que nenhuma tecnologia pode substituir? E quais experiências genuinamente humanas você tem escolhido preservar em meio a um mundo cada vez mais anestesiado e automatizado?

 

Com mais de 25 anos de experiência em coaching e mais de 7.000 horas dedicadas ao desenvolvimento humano, meu propósito é criar processos personalizados que ampliem o potencial e fortaleçam o nível de consciência de líderes e equipes. Sou Jorge Dornelles de Oliveira e coloco-me à disposição para construir, junto com você, um caminho de evolução real, feito sob medida para suas necessidades e objetivos.


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 Jorge Dornelles de Oliveira

Janeiro de 2026


 

 
 
 

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