2020, o ano que vivemos em perigo:

uma experiência concreta com Viktor Frankl, Aaron AntonoviskyeJacob Levy Moreno.


: : Transformação cultural : :



O balanço de final de ano deve incluir uma reflexão sobre o tempo em que vivemos em perigo e que a tensão permanente por pouco não nos levou à loucura completamente – não vale considerar os momentos de surto que quase entraram na rotina e que foram saudáveis no contexto. Como um pêndulo que desafia os princípios da gravidade e não consegue equilibrar o seu movimento, indo para lá e para cá, incessantemente, tenho a impressão que ficamos eletrizados pelo choque de consciência que foi 2020 e que ainda não nos decidimos se penderemos para a loucura ou para a sanidade.


Como sairemos desse ano? Ou melhor, como esse ano sairá de nós?


Afinal, de uma hora para outra fomos forçados a fundir as diversas dimensões e a conviver com os integrantes familiares mais tempo do que o usual, com a empresa e os chefes que entraram pela nossa casa adentro, passamos a vigiar e a nos sentirmos controlados pela sociedade, num Big Brother de largo alcance que mexeu com os sentidos de uma maneira inédita e assustadora.


Fomos parar no limite da autopercepção, a tal ponto que recriamos uma nova modalidade para a experiência desnuda que Viktor Frankl descreve sobre os campos de concentração. O impacto foi tão grande que fomos despojados da possibilidade de pertencer. Perdemos pessoas, referências, rotinas, e de repente, nos vimos inteiramente nus e prisioneiros, vestidos apenas com a existência que, no nosso caso, ganhou de brinde uma tornozeleira eletrônica psicológica. Sinal dos tempos.

Exagero ( substantivo) ? Exagero ( verbo - ato de exagerar)?


Temos todos exagerado?


A preocupação com a saúde mental, que veio numa onda midiática, merece um aparte. Algumas iniciativas organizacionais criadas com a finalidade de neutralizar esse sofrimento generalizado podem estar indicando que as nossas fronteiras entre a loucura e a sanidade estão ainda mais tênues – algumas empresas já estão criando um cargo específico para cuidar da saúde mental. Antes as organizações eram acusadas de adoecer as pessoas, agora estão mandando as pessoas para o manicômio.



Estaremos mesmo mais loucos do que o habitual?


As organizações costumam levar a culpa em situações atípicas e buscar medidas protetoras -- às vezes, superprotetoras--, para fugir dessa pecha de que enlouquecem seus colaboradores. Mas os grupos é que ficam doentes pela forma como se relacionam, pelos acordos que criam, pelo modus operandi que cultuam. Os indivíduos são responsáveis pela sua forma de estar no mundo, pelo exercício do livre arbítrio e pela responsabilização de seus atos, o que tem se tornado difícil diante de tantas cobranças da sociedade, que mais infantilizam do que buscam uma conscientização.


É certo que passamos o ano explorando e desafiando nossos limites, num intensivo de experimentos, que produziu interações das mais variadas, em nossas relações, ao misturar a dimensão privada e a coletiva. Aumentar a nossa presença em cada atitude para dar conta desse cenário, no dia a dia, (https://www.jorgedornellesdeoliveira.com/post/2020/04/24/o-professor-corona-e-o-exerc%C3%ADcio-da-presen%C3%A7a), elevou quanticamente os nossos sentidos nos obrigando a vivenciar inúmeros papeis simultaneamente (gestor-colaborador, pai-filho, professor-aluno) e a nos colocarmos em lugares nunca antes percebidos.

Moreno, o pai do Psicodrama, diria que somente assim, ao invertermos os papeis, é que conseguimos amadurecer e nos colocar no lugar do outro para criar as condições de um verdadeiro encontro. Ele não poderia prever uma situação em que esse exercício fosse tão intenso que causasse uma espécie de flow permanente, que vai um pouco além da medida. Ninguém aguenta esse nível de presença ou de consciência plena por um período muito prolongado.


A experiência desnuda, defenderiam os esotéricos, é uma forma de nos colocar no caminho do despertar. Jung, sem dúvida, diria que o ano trouxe uma grande oportunidade de nos libertarmos rumo à individuação e ao Self. Para o criador do moderno conceito da Salutogênese, Aaron Antonovisky, esse sofrimento limiar que balança o pêndulo da loucura-sanidade, é um fator que pode acionar a espiritualidade, fundamental para que o ser humano sobreviva. Como o terapeuta Viktor Frankl, ele aposta num senso de significação, num sentido para as coisas, mesmo que elas pareçam incompreensíveis.


E aí, enlouquecer ou ficar são? Essa poderia ter sido uma provocação do mestre Moreno. Sim, teremos que conviver com essa questão existencial por muito tempo, ou talvez para sempre, e esse pode ser o real presente dessa experiência com a COVID-19.


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