A mentalidade cartesiana da solução de problemas e a realidade holística dos processos.

Como lidar com essa premissa nos processos de coaching?


O pensamento Newtoniano de lei da causa e efeito foi preponderante por muitos séculos, e sem dúvida responsável por avanços significativos no mundo científico. Quando foram organizadas as primeiras abordagens sobre o funcionamento da mente com Josef Breuer e Sigmund Freud, principalmente na Viena dos anos 1880, o objetivo central era compreender os processos reprimidos pelo subconsciente, que geram sintomas como angústia ou ansiedade, e permitir ao cliente uma espécie de “cura” ao final do processo.


A partir das abordagens psicanalíticas, analíticas e a terapia em geral; permanece um pano de fundo onde existe uma causa profunda que uma vez descoberta, soluciona o problema ou encerra o processo. São conhecidos também os episódios sobre o insight Lacaniano. Ou seja, que Lacan interrompia a sessão quando o cliente tinha um insight – aquele estalo de clareza.


Por trás de todas estas abordagens existe uma ideia de cura, de alta de encerramento do processo. Evidente que estou falando dos primórdios da psicanálise e terapia. Hoje a abordagem já mudou muito, mas ainda existe uma herança inconsciente de fixar, consertar o cliente.


Você deve estar pensando: que interesse eu tenho nisso? Sou Coach.


De fato, o coaching se apoia metodologicamente em conhecimentos dessas áreas, mas atua de forma distinta, ou pelo menos deveria atuar. Reflita: quando você explora um tema com seu cliente, qual é a sua expectativa de resultado no final do processo?


Qual a expectativa inconsciente do seu cliente?


Minha experiência nesse sentido mostra que a maior parte dos clientes espera chegar a uma solução definitiva que resolva o seu tema para sempre. Ou seja, a ideia de fixar algo. E muitos profissionais aceitam essa expectativa, esquecendo que é um processo, e que o grande ganho está no fato do cliente aprender a lidar com essas situações ou padrões que se modificam continuamente ao longo da vida.


Para alguns coachees e clientes isso pode parecer desesperador. Para que investir tempo se não terei uma solução definitiva e terei que cuidar sempre disso? E aí nós vemos os resquícios do pensamento cartesiano que ainda nos influencia muito de forma inconsciente.


Então como reagir diante de uma situação na qual a solução parece não existir?


Quem não se recorda do início da pandemia no Brasil, em meados de março de 2020, quando ficamos restritos dentro de casa, por tempo indeterminado, nos habituando com uma série de incertezas que ameaçava nosso modo de viver e abalava todos os setores da sociedade?


De uma hora para a outra, surgiu um obstáculo complexo e fora de controle. Diante da falta de saída, logo cresceu uma onda de pensamentos e comentários de pessoas que esperavam um milagre acontecer e solucionar o problema em um tempo estabelecido. Isso não aconteceu, é claro.


Aos poucos, o mundo se adaptou e aprendeu a manejar a situação, mas com a perspectiva de uma solução definitiva: vacina. Deste modo, todos na espera de uma solução para o problema. A questão é que a solução parece não ser definitiva, e então, como lidar com isso?


A inclinação por crer em soluções miraculosas se inicia na tentativa de escapar das ansiedades e dos conflitos tanto do mundo externo quanto do interno; como se o ato de pensar pudesse controlar, explicar e até mesmo mudar a realidade.


Nesse estágio onde a resiliência parece perder o sentido, nasce o conceito de que algo externo poderá surgir e restaurar tudo de forma mágica. O fato é que é necessário compreender que assim como os problemas não são para sempre, as soluções também não são definitivas, pois as variáveis jamais param de nos desafiar no âmbito individual ou coletivo.


Isso significa notar que não há soluções determinadas, mas sim a mudança de patamar frente aos dilemas que aparecem. A cada etapa que se avança além das limitações, no próprio movimento de construção das soluções, é que nasce a capacidade de resposta desejada.


Da mesma forma que a busca por soluções procedentes de um salvador ou uma força imaginária; a esperança de um cenário perfeito para superar desventuras e progredir; são pensamentos que caminham no mesmo nível de consciência do indivíduo em relação combater a situação.


Nos processos de coaching é comum o cliente se defrontar com questões complexas e decidir apostar em uma espécie de positividade que beira a toxicidade, ao invés de entender como algo em movimento sem solução, mas que se pode lidar de forma adequada.


Como você lida com clientes nesta conjuntura?


No impacto com o incompreensível nascem os elementos que são a própria fonte da dissolução. Viktor Frankl ressalta em sua obra que a pessoa é capaz de encontrar sentido na desventura. Momento em que ela pode superar e se desenvolver plena e consciente compreendendo que não há uma solução decisiva em tempo algum.


A solução para agora é uma, mas no futuro ela não terá mais a validade de outrora. Assim é a constante da jornada.


Ante estas situações que parecem paradoxais no processo de coaching, como você constrói soluções com seus clientes?


Março de 2021

Jorge Dornelles de Oliveira



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