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Entre crise e transformação: o futuro da masculinidade na sociedade contemporânea

  • Foto do escritor: jorgedoliveira
    jorgedoliveira
  • há 4 horas
  • 7 min de leitura

Como compreender os arquétipos que moldaram o masculino ao longo da história pode ajudar os homens a construir uma masculinidade mais madura, consciente e responsável?

 

Movimentos como Legendários e Red Pill têm ganhado força nas redes sociais ao exaltar uma visão de masculinidade muitas vezes ancorada em ideias rígidas de força, controle e domínio. Trata-se de um modelo que não apenas simplifica, mas também restringe a complexidade do que pode significar ser homem no mundo contemporâneo. Ao reduzir o masculino a estereótipos, essas narrativas acabam ignorando dimensões importantes da experiência humana, como a capacidade de diálogo, sensibilidade, responsabilidade coletiva e maturidade emocional.

 

Diante disso, surge uma pergunta essencial: como compreender e viver o papel do homem para além desses estereótipos? Que outras formas de masculinidade podem emergir quando se amplia o olhar sobre identidade, relações e propósito na sociedade atual?

 

Movimentos como o Legendários têm crescido em diversos países porque respondem a uma sensação de desorientação identitária masculina que muitos homens experimentam nas últimas décadas. Transformações sociais profundas como a maior participação das mulheres no mercado de trabalho, mudanças nas estruturas familiares e novos debates sobre gênero alteraram papéis tradicionais que antes ofereciam referências claras sobre o que significava “ser homem”.

 

Para alguns, esse cenário produz insegurança e perda de pertencimento. Nesse espaço, movimentos como esse oferecem narrativas simples e estruturadas que prometem restaurar propósito, direção e identidade. Outro fator importante é a busca contemporânea por pertencimento e comunidade. Em uma sociedade marcada por individualismo, relações mais líquidas e isolamento emocional, muitos homens relatam dificuldade em construir espaços de amizade profunda e apoio mútuo. Esses movimentos frequentemente organizam retiros, encontros presenciais e experiências intensas de grupo que promovem vínculos fortes entre participantes.

A experiência coletiva, marcada por rituais, desafios e testemunhos pessoais, cria um senso de irmandade que pode ser muito poderoso do ponto de vista psicológico.

 

Contudo, é preciso observar que esses movimentos costumam associar masculinidade a princípios como responsabilidade, liderança familiar, coragem e fé, oferecendo um modelo moral relativamente estável em um mundo percebido como caótico. Para além disso, a expansão desses movimentos também se relaciona à força das redes sociais e da comunicação digital. Narrativas sobre “resgate da masculinidade”, superação pessoal e transformação espiritual circulam amplamente online, atraindo homens que se identificam com essas mensagens. Ao combinar linguagem motivacional, espiritualidade e experiências comunitárias intensas, esses movimentos conseguem mobilizar participantes e se expandir rapidamente em diferentes países.

 

Com uma proposta ainda mais radical, o movimento Red Pill ganhou destaque nos últimos anos como reação às transformações nas relações de gênero. O termo Red Pill “pílula vermelha”, em inglês, tem origem no filme Matrix (1999) e passou a ser usado na internet como metáfora para um suposto “despertar” sobre as dinâmicas entre homens e mulheres. Na prática, porém, essa narrativa costuma estar associada a discursos misóginos e antifeministas, que apresentam interpretações simplificadas e muitas vezes distorcidas das relações sociais.

 

No entanto, é evidente que esse tipo de conteúdo tende a reforçar visões polarizadas sobre homens e mulheres, tornando o debate sobre a masculinidade contemporânea mais complexo e, muitas vezes, controverso. O surgimento desses movimentos não pode ser explicado por um único fator. Ele resulta da convergência entre mudanças culturais, a busca por pertencimento, a necessidade de sentido e estratégias eficazes de mobilização nas redes sociais, que amplificam narrativas simples para questões sociais complexas.

 

Vale lembrar que essa discussão não é recente. Já em 2018, quando o tema ainda aparecia pouco na mídia, eu escrevia sobre a necessidade de revisitar o olhar sobre o masculino. Quem acompanha meu trabalho há mais tempo sabe que o blog começou justamente com essa proposta: refletir sobre o papel do homem na sociedade contemporânea. A intenção nunca foi replicar no homem comportamentos tradicionalmente associados ao feminino, mas ampliar a compreensão do masculino, reconhecendo que existem diferentes formas de vivê-lo. Isso implica resgatar uma masculinidade menos presa a estereótipos e mais aberta à maturidade, à flexibilidade e à consciência do próprio papel no mundo, uma forma de ser homem capaz de conviver com diferentes grupos e realidades de maneira mais equilibrada e responsável.

 


Como é possível repensar a masculinidade para além da ideia de força, controle e dominação que historicamente a marcou?

 

Minha ponderação diante de tudo isso é que muitos homens acabam se sentindo confusos em relação à própria masculinidade em um nível mais profundo. Ao mesmo tempo, parte do debate público frequentemente trata os homens como se fossem os únicos responsáveis por tudo o que ocorreu historicamente na sociedade, como se fossem agentes isolados de todas essas estruturas.

 

Reconhecer responsabilidades históricas e os privilégios associados ao fato de nascer homem é importante e necessário. No entanto, essa discussão às vezes acaba colocando sobre os ombros dos homens um peso excessivo de culpa e expectativa, sem necessariamente abrir espaço para que também possam refletir, questionar e até dizer que não desejam continuar reproduzindo certos papéis ou encargos que lhes foram atribuídos ao longo do tempo.

 

Quando se fala em “resgatar a masculinidade”, talvez a questão mais importante não seja voltar a antigos modelos masculinos, mas repensar qual é o papel do homem no mundo contemporâneo. Muitos movimentos acabam propondo um retorno a referências mais patriarcais ou heroicas, as figuras ligadas ao arquétipo do guerreiro, do provedor, do homem invulnerável. São imagens que têm sua origem em construções antigas do masculino e que, em muitos casos, já não respondem às complexidades das relações humanas atuais.

 

Enquanto as mulheres avançaram profundamente na reflexão sobre o feminino, ampliando espaços, questionando padrões e reconstruindo identidades, muitos homens permaneceram presos a modelos antigos, sem desenvolver uma nova compreensão sobre si mesmos. E talvez seja justamente aí que esteja o desafio: não o de restaurar um masculino rígido, mas o de construir uma masculinidade mais consciente, madura e integrada.

 

Não se trata de formar novos “heróis”, nem de alimentar caricaturas contemporâneas do masculino. Também não se trata de criar uma oposição entre homens e mulheres. O caminho parece ser outro: formar pessoas capazes de compreender, com profundidade, tanto as dimensões do masculino quanto do feminino dentro de si e nas relações. Pessoas emocionalmente mais inteiras, mais conscientes e mais humanas. Talvez o verdadeiro resgate não seja da masculinidade em si, mas da capacidade do homem de se reconectar consigo mesmo, com o outro e com o seu lugar no mundo de uma maneira mais saudável, sensível e responsável.

 

Ao observar como o papel do masculino foi sendo construído ao longo da história, percebe-se que ele não é fixo, mas resultado de transformações culturais, sociais e simbólicas. Diversos estudos em mitologia, antropologia e psicologia analítica mostram que os arquétipos associados ao masculino foram se modificando conforme as necessidades das sociedades humanas. Em estágios mais antigos da organização social, predominava uma configuração que alguns autores descrevem como Caçador–Xamã–Malandro: um masculino profundamente conectado à natureza, ao instinto e à sobrevivência do grupo.

 

Nesse contexto, o homem exercia funções ligadas à caça, à exploração do território e, muitas vezes, também ao papel de mediador simbólico com o mundo espiritual, o xamã. Essa figura representava uma relação mais fluida entre o lado humano e o lado animal da existência, em que força, intuição e adaptação eram qualidades fundamentais. Com a sedentarização das comunidades humanas, o surgimento da agricultura e a fixação em territórios, os papéis sociais começaram a se reorganizar. A necessidade de proteger terras, recursos e estruturas sociais favoreceu o fortalecimento de arquétipos ligados ao guerreiro e, posteriormente, ao patriarca. Os homens passaram a assumir, com maior intensidade, funções de defesa, liderança e organização da ordem social, enquanto outras atividades produtivas como o cultivo e a preparação dos alimentos se consolidavam em diferentes arranjos dentro da comunidade.

 

Ao longo dos séculos, esse deslocamento simbólico contribuiu para que o masculino fosse cada vez mais associado à força, autoridade e controle. Em termos arquetípicos, o homem foi se aproximando da figura do guerreiro e do rei, responsável por estabelecer regras, manter a hierarquia e preservar a estabilidade do grupo. Mitos, contos e narrativas de diferentes culturas  analisados por áreas como a antropologia e a mitologia comparada, revelam como essas imagens simbólicas ajudaram a moldar a percepção social do que significa ser homem. Compreender essa evolução ajuda a perceber que a masculinidade não é um modelo único e imutável, mas um conjunto de possibilidades que se transforma junto com a própria história humana.

Arquétipos podem ser compreendidos como estruturas simbólicas universais que organizam a formação de imagens, mitos e padrões de comportamento na psique humana. Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, eles são descritos como matrizes herdadas do inconsciente coletivo, uma espécie de memória psíquica ancestral compartilhada por toda a humanidade. Jung afirmava que essas estruturas estão, de certo modo, “inscritas debaixo da nossa pele”, manifestando-se em símbolos, narrativas e atitudes que atravessam gerações e culturas.

 

Nesse sentido, muitas percepções sobre o papel do masculino e sobre o comportamento dos homens não surgem apenas de construções sociais recentes, mas também dialogam com padrões simbólicos muito antigos. Esses arquétipos foram sendo moldados ao longo de milhares de anos e continuam ativos no inconsciente coletivo, ainda que alguns tenham sido esquecidos, distorcidos ou menosprezados ao longo da história, como ocorre com a tríade mais arcaica do masculino, frequentemente associada às figuras do Caçador, do Xamã e do Malandro.

 

A questão que se coloca, portanto, é como o homem contemporâneo pode reconectar-se com esses arquétipos mais antigos, que compõem aquilo que chamo de masculino profundo. Esse processo passa por ampliar a consciência sobre si mesmo e reconhecer dimensões da experiência masculina que foram negligenciadas ao longo do tempo.

 

Um dos caminhos possíveis para esse resgate passa pelo encontro do homem com seu feminino interno — aquilo que Jung chamou de anima — e pela disposição de confrontar as próprias sombras, ou seja, os aspectos da personalidade que foram reprimidos ou pouco explorados. Ao integrar essas dimensões, abre-se a possibilidade de desenvolver uma masculinidade mais consciente, equilibrada e madura, capaz de ir além dos estereótipos tradicionais.

 

Repensar o futuro da masculinidade na sociedade contemporânea tornou-se não apenas relevante, mas necessário. Por isso, em breve retomarei a abertura do Programa O Masculino Profundo, uma série de encontros dedicada a refletir e trabalhar, de forma prática, o resgate desses arquétipos esquecidos do masculino. A proposta é criar um espaço de diálogo e investigação interior, no qual homens possam ampliar a consciência sobre si mesmos e sobre o papel que desejam ocupar no mundo.

 

Partimos de perguntas fundamentais: qual é o meu papel como homem hoje? De que maneira desejo exercer a minha masculinidade? E como posso iniciar um caminho mais consciente e autêntico nesse processo? Mais do que respostas prontas, o programa busca oferecer ferramentas de reflexão e desenvolvimento pessoal para que cada participante construa uma forma mais madura, responsável e integrada de viver o masculino no mundo contemporâneo.

 

Com mais de 25 anos de experiência em coaching e mais de 7.000 horas dedicadas ao desenvolvimento humano, meu propósito é criar processos personalizados que ampliem o potencial e fortaleçam o nível de consciência de líderes e equipes. Sou Jorge Dornelles de Oliveira e coloco-me à disposição para construir, junto com você, um caminho de evolução real, feito sob medida para suas necessidades e objetivos.

 

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Jorge Dornelles de Oliveira

Maio de 2026

 
 
 

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