O visgo da alma

 

 

 

Na fotografia do mundo atual reconhecer as emoções costuma ser a chave para desvendar o mistério da maturidade. Os homens tendem a se tornar mais abertos e mais sensíveis, e até mesmo chorões -- em geral, a partir da meia idade --, enquanto as mulheres passam a assumir um lado mais assertivo nos ambientes sociais, especialmente no trabalho. Certos de que cumpriram devidamente a missão de entrar em contato com a Anima, no caso dos homens, e do Animus, no que se refere às mulheres, conforme indica Jung, eles caem, no entanto, no visgo da alma, lugar onde muita gente estaciona, sem saber como lidar com a vida a partir desse reconhecimento dos seus opostos.

 

Tenho sido testemunha de muitos desses movimentos estereotipados, normalmente imbuídos de um espírito não muito diferente daqueles que animam os heróis e os patriarcas. Se olhados em conjunto, com certo distanciamento, homens e mulheres parecem estar em desequilíbrio, desconfortáveis em suas posições, apesar da aparente integração de suas dualidades, o que teoricamente deveria ter fortalecido a sua trajetória de crescimento.

 

Admitir a porção feminina, no caso dos homens, como diria Gilberto Gil, e vice-versa, no que diz respeito ao público feminino, sem dúvida, é o primeiro passo do crescimento ou individuação. Psicologicamente, se um homem se identifica exclusivamente com sua persona de homem, e ignora a sua Anima, sofre uma modificação psíquica que mais cedo ou mais tarde o fará enfrentar aquilo que tentou excluir de alguma forma da sua consciência. Em outras palavras, não há como fugir da aceitação desses arquétipos da psique, porque Anima e Animus são blocos essenciais de construção da estrutura psíquica de todo homem e de toda mulher.

 

Na modernidade, homens e mulheres poderiam desempenhar funções semelhantes fazendo inúmeras combinações de polaridades masculinas e femininas, mas muitos de nós param aí: ou são homens fragilizados pela Anima ou mulheres masculinizadas pelo Animus. O que falta então nesse quadro?

 

Na sequência do reconhecimento dos opostos vem o período da sombra – que deve ser vivenciada em toda a sua plenitude – para que possamos ir, depois disso, em busca da sabedoria da maturidade, daquilo que chamamos de masculino ou feminino profundos.

 

Quais seriam então os caminhos para transcender a Anima ou o Animus?

 

Como vivenciar esses arquétipos, mergulhar na sombra mais escura e continuar trilhando um caminho de aprendizado em direção às profundezas do universo masculino ou feminino?

Seria possível sobreviver aos nossos demônios mais cruéis, encarar situações das mais doloridas ou conflituosas e sair disso? Como estaríamos então? Transformados, diferentes? Que tipo de homens e mulheres seríamos? E quais cenários encontraríamos à nossa frente?

 

E a Alma, onde fica em tudo isso?

 

Para alguns, ela é a própria psique.

 

É ela que nos guia ao longo do percurso da nossa existência, promovendo a integração dos nossos reflexos e enfrentando nossa sombra para iniciar um resgate que pode nos levar em direção às profundezas do masculino e do feminino profundos que representam o período de maturidade – época em que o homem enfrenta juventude e velhice, poder e vulnerabilidade, triunfo e tragédia, cultivando todas as suas polaridades, com grande sabedoria, alcançando, assim,  o objetivo mais almejado da jornada da Alma.

 

Masculino profundo

 

Não por acaso, nesse momento, arquétipos como o Xamã (caçador-malandro) são peças fundamentais para auxiliar as “mudanças de fase”. Banidos pelos patriarcas que os transformaram em demônios, ao longo da história, essas figuras sábias brotam espontaneamente do nosso inconsciente, cada vez mais, e vêem à tona disfarçadas, na tentativa de criar uma nova linguagem. No caso dos homens, diferentemente do que se acredita, os xamãs são mais antigos e mais fundamentais para a alma masculina do que o herói e o patriarca (considerados até então como a base da psique masculina).

 

Para chegar ao masculino profundo, no entanto, é preciso ir além da Anima e da sombra, no caminho da totalidade. Segundo Allan Chinen, trata-se da quebra de um importante paradigma e de uma experiência coletiva: os homens precisam se livrar das maneiras tradicionais heroicas e patriarcais de agir, se quiserem integrar masculino e feminino, espírito e instinto, bem e mal, e amadurecerem.

 

O reflexo desse caminho do masculino não concluído, dentro das organizações, reforça o que já vimos antes, os arquétipos do herói e do patriarca. Quando o herói, não faz contato com a sua Anima, nem reconhece a sua sombra, por exemplo, ele tende a chorar escondido ou a virar um patriarca. Daí a necessidade das organizações abrirem espaço para outros papeis como o Xamã, na busca de integrar e equilibrar o masculino. Esse trabalho também é feito ao nível individual no sentido de facilitar esse caminho que passa pela Anima, vai até a sombra, para depois então ingressar no que estamos chamando de masculino profundo, que aqui será a nossa principal referência.

 

É disso o que trataremos na segunda temporada de “A Saga da Alma e a sua práxis no mundo”.

 

Nos acompanhem.

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