Declarações do ego

 

Atualmente é muito comum ouvirmos: “eu sou assim e funciono assim”. É o que batizei de declarações do ego.  É quase como se a partir disso estivesse ‘oficialmente’ decidido que ao soar desse martelo não há chances de qualquer negociação ou de troca. Nessa declaração está implícito: ou você aceita os meus termos ou está fora. É dessa forma que as pessoas acreditam que estão sendo transparentes ou autênticas e facilitando o processo de comunicação, quando na realidade, estão congelando as possibilidades de se relacionarem verdadeiramente umas com as outras.

 

Esse comportamento declarativo exacerbado é registrado nos mais variados contextos, da vida pessoal àquela dentro das organizações. No ambiente profissional, as declarações acontecem quando menos se espera, deixando quem as ouve praticamente sem alternativa. Costumam cumprir duas funções: encerrar o diálogo, e ao mesmo tempo, eximir a pessoa de qualquer futura responsabilidade com relação à questão que estava sendo discutida. Já me posicionei, é assim que penso, é assim que faço.

 

Isso tem impactado o dia a dia das relações de trabalho, sobretudo, nos grupos. Quem sentencia uma declaração do ego, numa discussão coletiva, espera que o grupo atenda e acate a sua necessidade. Mas o ego fala, e não leva em consideração o outro, muito menos os outros, no plural. Não contem comigo. Quem quiser que me acompanhe. Ficou claro?

 

Como fica então quem não faz a declaração mas a presencia? É obrigado a aderir?

 

Essa adesão forçada lembra os contratos de adesão, desses que você assina com o banco ou o cartão de crédito, em bases que não permitem mudanças e reproduzem traços frequentes do legado patriarcal-matriarcal: são definitivos, não deixam margens para o embate de ideias, e pretendem demonstrar uma sofisticada elaboração individual  quando escondem um comportamento draconiano ou infantil, a depender do ponto de vista e da situação.

 

Não há mais tempo nem paciência para uma simples escuta, para um diálogo, para uma construção em conjunto. E a possibilidade de negociar, saudável em qualquer relação, não importando o contexto, vem sendo cada vez mais retirada do cenário, em função dessa atitude centrada e egoísta. Perde-se a troca, o movimento, a coisa viva. E ao invés de aprofundarmos as interações, reforçamos a tendência de exibir uma persona pronta e assertiva que quer ser vista como madura e consistente.

 

Como sustenta o filósofo Zigmunt Bauman, teórico que explorou a “modernidade líquida” e que investiga a ambivalência da identidade, polarizada entre a opressão e a libertação,  é preciso manifestar-se sempre para experimentar o princípio de responsabilidade próprio de cada um. Isso, no entanto, é bem diferente da tagarelice e dos talk-shows a que nos acostumamos na era digital, onde o que importa é fazer statements  e aguardar os aplausos virtuais. Quem quiser que nos curta, quem não quiser que acesse outra página ou outro canal.

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