Por que um dos maiores desafios de uma sessão de coaching é fazer com que o cliente passe a maior parte do tempo possível no presente?
- jorgedoliveira

- 3 de jun.
- 6 min de leitura
A psicologia contemporânea já demonstrou que a mente humana possui uma tendência natural à dispersão. Estudos sobre atenção, neurociência e funcionamento cognitivo revelam que passamos uma parte significativa do tempo desconectados da experiência presente. O corpo permanece em um lugar, mas a mente transita constantemente entre lembranças, preocupações, projeções e expectativas. Enquanto conversamos, pensamos na próxima tarefa. Enquanto trabalhamos, revisitamos situações mal resolvidas do passado. Mesmo nos momentos de descanso, antecipamos problemas futuros ou simulamos cenários que ainda nem aconteceram. A consequência disso é um afastamento progressivo da experiência real do agora. A presença plena torna-se rara.
No contexto do coaching, essa dinâmica se manifesta de maneira ainda mais evidente. É comum que o coachee mantenha sua atenção excessivamente direcionada ao futuro: metas, resultados, decisões, performance, reconhecimento ou medo do fracasso. Muitas vezes, ele chega ao processo carregando ansiedade, urgência e a necessidade constante de controlar o que ainda não aconteceu. Sua mente está voltada para aquilo que deseja conquistar [ou evitar], e não para aquilo que efetivamente está vivendo no presente.
Mas essa não é uma armadilha exclusiva do coachee. O coach também pode se afastar da presença. Quando o profissional entra na sessão excessivamente preocupado com ferramentas, técnicas, resultados rápidos ou com a necessidade de “conduzir” o cliente a determinado lugar, ele corre o risco de abandonar aquilo que talvez seja o elemento mais transformador do processo: a qualidade da presença.
A verdadeira escuta não acontece apenas através das palavras. Ela exige atenção ao silêncio, às emoções, às pausas, às contradições e até mesmo àquilo que não consegue ser dito. Um coach desconectado do presente tende a ouvir para responder, interpretar ou direcionar, e não para compreender profundamente o outro. Da mesma forma, um coachee excessivamente preso ao futuro pode transformar a sessão em uma busca ansiosa por respostas imediatas, sem conseguir entrar em contato com aquilo que realmente sente, deseja ou necessita naquele momento.
Talvez uma das maiores armadilhas no coaching seja exatamente essa: transformar um espaço de consciência em um espaço apenas de performance. Quando presença é substituída por aceleração, o processo perde profundidade. Porque desenvolvimento humano não acontece apenas na definição de metas ou na construção de estratégias. Ele acontece, sobretudo, quando alguém consegue sustentar um encontro genuíno consigo mesmo.

É nesse ponto que a presença plena deixa de ser apenas uma habilidade relacional e passa a ser um estado de consciência. Estar presente exige que coach e coachee abandonem, ainda que temporariamente, a necessidade de antecipar respostas, controlar resultados ou fugir do desconforto emocional. Significa criar espaço para perceber o que emerge no agora: pensamentos, emoções, resistências, medos, desejos e incongruências.
Em muitos casos, o futuro funciona como uma forma sofisticada de fuga. A pessoa fala sobre metas, planos e objetivos, mas evita entrar em contato com aquilo que sente no presente. E sem presença, não existe transformação profunda, apenas movimento superficial.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes dentro de qualquer processo de coaching não seja “onde você quer chegar?”, mas sim: “você consegue estar verdadeiramente presente na própria experiência enquanto caminha?”.
Nesse contexto, o pensar assume um papel central. Pensar é necessário. É através do pensamento que organizamos a realidade, criamos significado e construímos identidade. Mas o excesso de pensamento também pode aprisionar. A mente humana foi condicionada a buscar controle, previsibilidade e segurança. Por isso, ela insiste em revisitar dores antigas ou criar cenários futuros constantemente. O problema é que esse movimento contínuo produz ansiedade, desgaste emocional e afastamento do agora.
No meu livro, Coaching on Time, a arte da presença plena, esse tema recebe um destaque especial por representar um elemento central do processo de coaching, envolvendo tanto o coach quanto o coachee (cliente). Um dos maiores desafios de uma sessão é ajudar o cliente a permanecer a maior parte do tempo possível no presente, conectado ao tripé PSQ [Pensar, Sentir e Querer]. É justamente nesse estado de presença e congruência que acontecem os avanços mais profundos do processo. Porém, existem também as armadilhas dos campos anímicos, que podem afastar coach e coachee da autenticidade e da presença plena.
A psicologia mostra que emoções ignoradas não desaparecem. Elas apenas se deslocam. O que não é acolhido internamente pode surgir como irritação constante, ansiedade, vazio, compulsão ou esgotamento emocional. Muitas vezes, a dificuldade de permanecer no presente não está apenas no excesso de pensamento, mas também no medo de sentir. Porque o presente traz emoções reais. E emoções reais nem sempre são confortáveis.
O sentir surge então como uma dimensão esquecida da experiência humana. Vivemos em uma cultura que valoriza performance, eficiência e respostas rápidas. Poucas pessoas foram ensinadas a reconhecer emoções com profundidade. A maioria aprendeu a racionalizar sentimentos ou escondê-los atrás de discursos de força e controle.
Talvez seja por isso que tantas pessoas permaneçam presas ao passado ou obcecadas pelo futuro. O passado oferece identidade. O futuro oferece ilusão de controle. Já o presente exige vulnerabilidade. Estar verdadeiramente presente significa abandonar, ainda que temporariamente, a necessidade de controlar tudo. E isso é extremamente difícil para o ego humano.
Você já percebeu quantas vezes desejou transformar algo na sua vida, mas, ao permanecer excessivamente focado no futuro, nos medos, expectativas e projeções, acabou sem conseguir realizar ações concretas no presente?
Ao longo de décadas de trabalho, venho abordando a importância da presença plena nas relações humanas, especialmente no coaching executivo e no desenvolvimento de lideranças. Líderes, equipes e organizações sofrem quando as pessoas deixam de estar verdadeiramente presentes umas com as outras. Relações superficiais, escuta fragmentada e diálogos automáticos se apresentam como reflexos de mentes constantemente ocupadas, aceleradas e desconectadas do momento presente. Em uma cultura que valoriza velocidade e performance, pensar excessivamente passou a ser confundido com produtividade. No entanto, muitas vezes, o excesso de pensamento não aproxima o indivíduo de soluções, apenas o afasta de si mesmo, das relações e da capacidade genuína de presença.
É nesse ponto que entra o querer. Na perspectiva mais profunda do desenvolvimento humano, o querer não se resume ao desejo superficial ou ao impulso imediato. O querer está ligado à direção da alma, ao propósito, àquilo que movimenta o ser internamente. O problema é que muitas pessoas vivem desconectadas do próprio querer verdadeiro.
Pensam aquilo que o mundo espera delas. Sentem coisas que tentam esconder. E desejam algo completamente diferente da vida que estão vivendo. Essa fragmentação gera sofrimento psíquico e sensação de vazio. Quando pensar, sentir e querer caminham em direções opostas, a pessoa perde coerência interna. Surge então a angústia silenciosa de viver uma vida desconectada da própria essência.
Grande parte do meu livro dialoga justamente com essa busca por congruência humana. Por isso, compartilho com frequência a compreensão de que transformação verdadeira não acontece apenas no nível técnico, metodológico ou racional, mas, sobretudo, na qualidade da presença, das relações e da consciência que construímos sobre nós mesmos. Um líder incongruente inevitavelmente impacta equipes incongruentes. Da mesma forma, uma pessoa desconectada de si dificilmente conseguirá estabelecer relações profundas, autênticas e transformadoras com os outros.
Viver no presente talvez seja, no fundo, um exercício de integração interna. Quando pensar, sentir e querer se aproximam, nasce uma experiência mais íntegra de existência. A pessoa não precisa fugir constantemente para lembranças ou fantasias futuras porque começa, pouco a pouco, a habitar a própria vida com mais consciência.
O presente não é apenas um instante no tempo. É o único espaço onde a vida realmente acontece. E talvez maturidade emocional seja exatamente isso: aprender a permanecer nele sem precisar escapar o tempo todo de si mesmo.
O que acontece quando pensamento, emoção e vontade deixam de caminhar em direções opostas e passam a se alinhar? Talvez seja justamente nesse encontro que surja a verdadeira transformação humana. É a partir desse movimento entre Pensar, Sentir e Querer que começamos a compreender não apenas a consciência humana, mas também a enorme dificuldade que temos de permanecer plenamente presentes na própria experiência. Você se reconhece nessa realidade?
Com mais de 25 anos de experiência em coaching e mais de 7.000 horas dedicadas ao desenvolvimento humano, meu propósito é criar processos personalizados que ampliem o potencial e fortaleçam o nível de consciência de líderes e equipes. Sou Jorge Dornelles de Oliveira e coloco-me à disposição para construir, junto com você, um caminho de evolução real, feito sob medida para suas necessidades e objetivos.
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Jorge Dornelles de Oliveira
Junho de 2026




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