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Como a fixação do estereótipo distorce a realidade sobre as atitudes da masculinidade tóxica?

Atualizado: 10 de jul. de 2023

Quais são os limites que podem determinar os comportamentos dos homens em situações ditas de masculinidade tóxica? De que forma é possível estabelecer uma medida justa para avaliar o que é tóxico e o que não é tóxico nesse sentido? Qual é o limite da tolerância com essas ações? Estamos caminhando para a jornada do aprendizado e a construção de um novo modelo de masculinidade ou na verdade estamos nos tornando neutros para evitarmos certos conflitos?


Há alguns anos eu me dedico a estudar esse tema e a oferecer apoio à homens que desejam expressar melhor a sua masculinidade sem ter que se torturar mentalmente por serem quem são. Especialmente homens que estão na posição de liderança dentro das empresas e não podem ter a sua imagem arranhada por uma conduta equivocada, seja consciente ou não do seu papel masculino. Então, de alguma forma, me aprofundei muito nesse tema da masculinidade profunda (a expressão masculina ligada ao arquétipo) e facilito essa jornada de autoconhecimento.


Para ilustrar o impacto que esse tema tem atualmente, há algumas semanas vi e li uma série de críticas ao presidente francês Emmanuel Macron, quando no dia 17 de junho, no Stade de France, em Paris, ao final de uma disputa pela liga nacional de rúgbi vencida pela equipe do Toulouse, o governante foi visto bebendo uma garrafa de cerveja long neck em 17 segundos na comemoração do time vencedor. Macron bebeu os 330 ml em apenas um gole, uma virada da garrafa. Mesmo sendo um notório fã de esportes, incluindo o rúgbi, e dentro de um contexto considerado descontraído, Macron foi duramente criticado na mídia por sua postura. O presidente foi instigado pelo clima de festa do vestiário durante a comemoração do título, mas isso não foi o suficiente para amenizar a situação.


Mulheres da oposição francesa o acusaram de expressar uma masculinidade tóxica por esse comportamento de beber cerveja em rede nacional e de uma maneira tão peculiar. A deputada Sandrine Rousseau chegou a postar em seu perfil no Twitter: “A masculinidade tóxica em uma imagem”. A mídia nacional e internacional, incluindo a CNN, repercutiram o fato e debateram a situação categorizando o que chamaram de péssimo exemplo a ser seguido. Enquanto eu me dava conta da situação e do contexto que tudo aconteceu, tentei fazer o exercício de analisar se de verdade ele havia expressado uma masculinidade tóxica ou se aquele comportamento seria mais um comportamento arquetípico da expressão da masculinidade profunda. Para longe dos estereótipos do masculino politicamente correto eu sempre me interessei em entender na verdade qual é o papel do masculino no mundo atual e isso sem dúvida foi atuando no meu processo de transformação pessoal.


Qual é o papel do homem no mundo contemporâneo? Você já deixou de ser quem você é para ser o que esperam que você seja?


Existem muitos materiais sobre os processos de mudança e da libertação do feminino. Contudo, a literatura é relativamente reduzida sobre o processo do masculino. O poeta Robert Bly foi quem cunhou essa denominação masculino profundo e foi essa a minha inspiração para começar a escrever no blog e, ao longo do tempo, experimentar essa pesquisa na minha forma de ser masculino no mundo.


O conceito central é entender qual é o papel dos seres humanos que nasceram do sexo masculino e se identificam com as características deste sexo - o que se chama hoje homens cis. Sem considerar todas as outras possibilidades minha pesquisa procura entender por que esse grupo de homens, na sua maioria, encontra-se confuso ou indeciso sobre como se posicionar no mundo atual e que consequências essa insegurança traz.


Nem sempre a simbologia que conhecemos traduz o comportamento real. Principalmente pelo fato de conhecemos somente uma parte da simbologia e desconhecemos em especial o masculino profundo. “Por que os homens tratam o masculino profundo depois do feminino interior? Pode parecer estranho, mas a maioria dos homens considera a sua masculinidade um fato encerrado e presume que a masculinidade é apenas o que a sociedade diz ser o herói ou o patriarca. O homem não investiga os fundamentos da masculinidade”, diz o escritor e professor Allan B. Chinen, em Além do Herói. Isso é altamente relevante para começarmos a entender melhor as coisas.

No caso do Macron, não significa que ele tenha tido uma postura tóxica. Ele pode até ser questionado pelo mal exemplo do uso descabido de bebida, sobretudo com os jovens, mas não à masculinidade tóxica. O fato é que talvez a sociedade não conheça e não saiba diferenciar o que é o masculino profundo. Isto é, não está reconhecendo que a forma que um homem se expressa – e confraterniza – com outros homens é diferente da forma que a mulher habitualmente faz. Isso tem muito mais a ver como a forma arquetípica do que com uma atitude de brutalidade. Ter conhecimento sobre isso seria interessante tanto do desenvolvimento dos homens como das mulheres.


Por que o caminho para a neutralidade pode ser um autoengano e não um progresso?


Esse patrulhamento das atitudes parece não ter limites de julgamento e em qualquer situação é possível perceber que alguns estão mais receosos em se expressar. Isso vale para os homens e para as mulheres. No caso dos homens, não expressarem a emoção do seu jeito, do seu modo, reflete claramente numa opressão. Essa opressão muitas vezes vem desse lugar que se foi concebido para ele ocupar na sociedade: o herói ou o patriarca. Os arquétipos que Carl Jung tanto menciona na sua obra. Por isso, existe um entendimento geral de que os homens não sabem lidar com as emoções. Quando se expressam, se expressam mal. Vivem numa pressão interior enorme com medo de serem quem são. Por exemplo, se um homem chorar ele é visto como um fracassado. Entendemos ao longo da história que homem não pode chorar. Mas nos eventos esportivos como campeonatos de futebol e outros esportes, os homens podem chorar.


Aliás, isso na visão geral traduz um homem infantilizado que não sabe lidar com a sua emoção. Mas nesse contexto é permitido chorar e ele até consegue mobilizar outros homens da plateia a chorarem com ele. Homens durões. Mas na realidade o que vemos quando isso acontece é uma toda uma simbologia invertida. Por acaso você já pensou que homens e mulheres, por suas trajetórias de desenvolvimento também tendem a expressar seus sentimentos de forma diferente? Que existe uma forma peculiar dos homens colocarem seus sentimentos e que isso não significa obrigatoriamente as lagrimas?


Eu costumo trabalhar com CEOs e C-levels e sei que eles não se permitem expressar os seus medos por temerem ser vistos como fracos. Então eles não se expressam através das formas esperadas, mas isso não significa falta de expressão. O período do iluminismo foi talvez um dos maiores responsáveis pela cristalização dos gêneros principalmente nos padrões de comportamento e aspecto externos com mulheres de vestidos e homens de calça. Foi o de dar aos homens o papel do forte e menos sensível e as mulheres a fortaleza da fragilidade, beleza e sensibilidade que contribui para essa visão em relação à forma de expressar. Isso levou de certa forma ao entendimento de que a forma correta de manifestar as emoções é a feminina. Boa parte das mulheres espera que seus parceiros se expressem como elas próprias se expressam. Isso é outro equívoco. A natureza biológica do homem é diferente da mulher, portanto, todas as manifestações emocionais também são. Pode-se dizer que o iluminismo acirrou e estereotipou e é muito bom o que vemos acontecendo hoje com a liberação desses padrões rígidos, mas gênero masculino e feminino ainda existirão por muito tempo e eu diria viva a diferença!


Um homem pode beber uma cerveja em um gole, assim como uma mulher também pode, se assim desejar. Nem tudo o que vemos realmente quer dizer aquilo que está por trás, aquilo que não vemos. Nem toda a manifestação é igual ou deve ser igual. Esse julgamento do que aconteceu é, a meu ver, uma visão do feminismo que nesse sentido equivale ao machismo pelo seu grau de intolerância.


Se ampliarmos o tema dessa reflexão para uma discussão mais abrangente que chegue em outros temas que são considerados polêmicos, por exemplo, a teoria de identidade de gênero, vamos entender um outro ponto de alerta sobre o processo. Alguns teóricos da Ideologia de Gênero afirmam que as pessoas não nascem homem ou mulher. Nascem capazes de ser o que quiserem. De acordo com eles, cada um é responsável por construir sua identidade, incluindo a escolha do gênero, independentemente do sexo biológico. Sendo assim, quem nasce biologicamente menino, não é definido como homem, pois pode escolher ser mulher. E quem nasce biologicamente menina, não é definida como mulher, pois pode escolher ser homem. Homem e mulher são papéis sociais flexíveis e relativos na Ideologia de Gênero. São construções que a sociedade impôs às pessoas e não uma realidade fixa e imutável. De acordo com estas ideias, a biologia não determina nada, mas sim a decisão de cada um de ser o que preferir.


Para trazer um elemento de comparação, o feminismo clássico reconhecia que existiam mulheres na sociedade ao pedir igualdade. A Ideologia de Gênero não considera que as pessoas nascem homem ou mulher, elas se tornam. Alguns expoentes da Ideologia de Gênero consideram que a divisão das pessoas entre homens e mulheres é errada e, portanto, um mal a ser combatido. Embora a teoria de gênero afirme que não se nasce homem ou mulher, as diferenças hormonais existem é não podem ser negadas dentro da ciência. Ainda teremos uma longa caminhada até entendermos plenamente o que os pensadores dessa teoria vislumbram e para termos estudos e comprovações cientificas mais solidas. Uma coisa é a questão histórica e os direitos de igualdade, isso não se discute, é legitimo. A outra coisa é negar que as diferenças existem. Esse não é um caminho de construção produtivo e profícuo.


Entretanto, como esses temas geram um nível grande de tensão e potencial de conflito vemos um incentivo a uma neutralidade acontecendo e sendo colocada cada vez mais como uma alternativa para resolver questões mais complexas que parecem ser uma ferida. As pessoas optam por essa zona neutra por não saberem na verdade como se expressar, ou para não correrem riscos. Daí surge, por exemplo, uma linguagem que diverge até entre si com “todxs” ou “todes”, e tantas outras formas de buscar a dita linguagem neutra.


Há alguns dias um cantor de música sertaneja-pop foi filmado ao final de um show encontrando dois fãs autistas e supostamente os imitando como um sinal de deboche. A mídia tornou isso público e o criticou duramente por sua atitude. Eu vi e revi o vídeo inúmeras vezes e procurei entender o outro lado. A própria mãe dos garotos não viu a atitude como um sinal de desrespeito. Ela até se pronunciou dizendo que ele (o cantor) entrou na brincadeira de forma bem-humorada para se aproximar e não em tom de menosprezo. Novamente eu digo que essa patrulha em busca de atitudes certas e erradas colabora muitas vezes para difundir a zona da neutralidade, que torna as relações politicamente corretas, mas diminui a espontaneidade por medo do julgamento e do patrulhamento dos fiscais da diversidade, que muitas vezes se manifestam a partir da sua experiencia individual e pretendem ser a voz de todo um seguimento.


Apesar disso, pouco estamos trabalhando para formar um aprendizado construtivo real. Veja bem, eu não estou defendendo que quando uma atitude que seja claramente ofensiva seja criticada e punida. O que eu quero dizer com essa reflexão é que é possível que chegue um tempo em que todos fiquem indiferentes por medo de serem quem são e no fundo escondam a melhor expressão de si. Mesmo que essa expressão ainda esteja em construção dia após dia como qualquer progresso existente.


Portanto, fica a questão de como resgatar no homem contemporâneo esses arquétipos muito mais antigos que fazem parte da própria alma do masculino e que se chama masculino profundo. Para que esse resgate aconteça desenvolvemos um caminho que leva os homens a explorar as suas vivências com o feminino (com o seu feminino interno), e a partir de uma perspectiva masculina que também lida com as suas sombras, isto é, com aquilo que não foi explorado ainda.


Qual é o seu papel como homem no mundo de hoje? De que forma você expressa o masculino?


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Jorge Dornelles de Oliveira

Julho de 2023






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