E agora José, a luz apagou


E agora, José? A festa acabou, A luz apagou, O povo sumiu, A noite esfriou, E agora, José? E agora, você?

( Carlos Drummond de Andrade)

Enquanto a reunião virtual acontece, o cachorro late, a criança entre na sala com alguma demanda para o adulto, ou acontece qualquer interrupção “caseira”, fundindo os ambientes da casa com o da empresa. São cada vez mais comuns cenas como essa que, ao se repetirem, enriquecem a especulação em torno do AP-DP – Antes da Pandemia, Depois da Pandemia. Terão sido unificados os caminhos da vida pessoal e profissional? Não há mais volta nesse sentido? Terão irremediavelmente caído as máscaras, e em consequência, as personas que usamos de acordo com cada habitat?

Como seremos quando tudo isso acabar?

Os momentos prosaicos que têm sido flagrados pelas câmeras nada mais são do que a continuidade de um roteiro que há algum tempo vem sendo rodado nos ambientes corporativos. Há tempos ensaiamos encurtar a distância que nos separa de nossas casas, experimentando o homeoffice, o trabalho 24hX7 -- que invade nossos lares, sem escolha --, ou exibindo, propositadamente, nossas vidas pessoais em mídias que não distinguem nossas personas. Temos caminhado nesse sentido.

Agora, no entanto, caiu o pano. Ao trabalhar de casa forçosamente, estamos desembocando nesse espaço onde as fronteiras são tênues e os limites ainda não conhecidos completamente. Há quem não tenha problemas em escancarar seu dia a dia, sentindo-se à vontade para abrir suas portas e fazer a reunião no quarto do filho, por exemplo, mas também existem aqueles que alegam as mais variadas desculpas para não abrir o vídeo na hora da reunião, postergando essa junção de cenários a qualquer custo.

Independente do percurso que temos cumprido ou aonde vamos chegar, o experimento atual, vem nos deixando desnudos (inteiros?), como se daqui para frente só fosse possível esse caminho. O fato é que uma experiência longa como essa que temos vivenciado, tende a nos transformar inteiramente, isso sim. Como será então quando voltarmos à ‘normalidade’?

Sairemos fortalecidos sem necessidade de fronteiras, mais autônomos? Daremos ao trabalho um outro valor, ou a casa voltará a ser um ambiente prestigiado como já foi antes ?

E como os CEOs e os gestores vão lidar com isso? Se sentirão diferentes perante suas equipes? Terão descoberto mais a respeito de seus colaboradores ? E o que isso vai mudar na prática? E os profissionais, como se sentirão?

E agora José?


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